sábado, 29 de outubro de 2011

Nenhuma linha nos jornais

O meu avô morreu. Simples assim. Morreu. Pegou todo mundo de surpresa.

Os jornais de amanhã não vão dar essa notícia. Não mesmo. Quantos avôs morrem todos os dias e nem por isso as manchetes dão o devido destaque para todos estes senhores que tanto lutaram, construíram, enfim, fizeram muito mais do que apenas passear por este mundo.

Não vão dar a notícia da morte do meu avô porque ele não morreu assassinado, não levou tiro, não esteve em nenhuma briga de bar ou sua morte não foi fruto do descaso com a saúde pública. Meu avô não! Morreu em casa, em meio as suas ferramentas, em um infarto fulminante. Coisa de um, dois minutos. Não gritou. Não chorou. Não sofreu.

Não vão dar a notícia da morte do meu avô porque ele não era famoso. Não era um ex-BBB, um jogador de futebol problemático, um apresentador de TV com ego inflado ou um político corrupto que vive nos noticiários. Meu avô não! Ele era simples toda vida. Em seus 82 anos nunca se acostumou com as câmeras, com as filmagens que os netos e filhos faziam, com as muitas fotos que sempre tirava. Tinha um jeito tímido comovente. Não buscava ser maior que ninguém, queria apenas estar presente nos momentos importantes da vida da família.

Não vão dar a notícia da morte do meu avô porque ele não era presidente de nenhum grande grupo empresarial, de nenhuma rede de lojas importantes ou dono de uma frota inteira de caminhões e de ônibus. Meu avô não! Viveu sua vida trabalhando, desde o cabo da enxada na sua Cassiterita, passando pelos apertos nas fábricas de tecido em São João del-Rei até aprender, praticamente sozinho, o ofício de pedreiro. Foram anos, décadas com a colher de pedreiro em mãos. Quantas casas, muros, fogões de lenha, pisos assentados, lajes ... e ele não vai sair nos jornais porque eu não tenho conhecimento de alguma obra dele que tenha caído ou não tenha resistido ao tempo.

Não vão dar a notícia da morte do meu avô porque ele não lançou nenhum grande programa assistencialista, não era nenhum famoso que tira 15 minutos do seu dia para visitar essa ou aquela instituição e tirar milhares de fotos. Meu avô não! Seu trabalho era anônimo. Há décadas, mensalmente, passava em sua vizinhança com seu carrinho recolhendo a “Cooperativa dos pobres”. Os jornais não dariam conta de calcular quantas pessoas almoçaram e jantaram nos últimos 40 anos por causa do meu avô. Vai ver por isso ele não vá sair nos jornais.

Não vão dar a notícia da morte do meu avô porque ele não lançou a pedra fundamental de nenhum estádio da copa e não está envolvido com nenhuma falsa ONG nem com nenhuma obra superfaturada. Meu avô não! Sempre ajudou a construir espaços para a Igreja. Foi assim com a Igreja de Matosinhos, com o salão Santo Antônio e com a Conferência Nossa Senhora de Fátima, essa última, uma de suas paixões. Na conferência também passou meio século, ajudando, levando em frente a obra de São Vicente de Paulo. E fez mais, deixou muitas sementes plantadas em diversas conferências em São João del-Rei. Não vai sair nos jornais que nos últimos 50 anos, o meu avô dedicava o seu “24 de dezembro” a fazer e distribuir as cestas básicas na conferência, e assim, fazer o natal de dezenas de família um pouco mais alegre.

Não vão dar a notícia da morte do meu avô porque ele nunca jogou um filho pela janela, nunca queimou nenhum deles, nunca os obrigou a pedir esmola. Meu avô não! Foram 12 filhos, 10 do primeiro e 2 do segundo casamento. E para estes nunca faltou um prato de comida, uma fruta, um “sargado” ... eles estudaram. Deram ao meu avô 24 netos e 2 bisnetos. E aquele homem simples, bondoso, sereno, que morreu aos 82 anos em meio a sua colher de pedreiro, sua serrinha, seu esmeril e suas tábuas ajudou a criar uma família que conta com sargentos, administradores, empresários, costureiras, jornalistas, engenheiros, fonoaudiólogos, economistas, servidores públicos, professores, cientistas do estado e tanta coisa que ainda está por vir ...

Mas isso não vai ganhar nenhuma linha nos jornais. Azar dos jornais.

Obrigado, JLC.

1 comentários:

James disse...

Poxa meu Padrinho, primeiramente a sua Benção!
Agora sim, realmente este simples homem fez a diferença para muitos sem medir esforços, com sa simplicidade! Penso hoje em seguir seus passos nessas obras sociais, mas sei que jamais chegarei a altura de lhe representar!
Sentiremos muita saudade do Sr Vô Zuza!!